A chamada Retatrutida apresentou resultados melhores que o Ozempic e o Mounjaro e semelhantes ao de uma cirurgia bariátrica. Endocrinologista avalia que futuro dos medicamentos para a doença parece ser promissor

Uma nova medicação para tratar obesidade e sobrepeso é vista por cientistas como promissora por apresentar resultados melhores que o remédio Ozempic e o Mounjaro e semelhante ao de uma cirurgia bariátrica. Os resultados da fase dois de testes com a chamada retatrutida foram publicados nesta semana no The New England Journal of Medicine, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo. O estudo foi apresentado no Congresso da Associação Americana de Diabetes no último dia 26.

 

Já existente no mercado, o conhecido remédio Ozempic é a semaglutida, uma molécula que “imita” o hormônio GLP-1. Já o remédio Mounjaro, presente nos Estados Unidos e que deve embarcar no Brasil em 2024, é a tirzepatida, e ‘imita’ os hormônios GLP-1 e GIP. Estes dois hormônios estimulam a produção de insulina no pâncreas, o que ajuda a regular os níveis de glicose no sangue. Além disso, o GLP-1 desempenha um papel na supressão do apetite, promovendo uma sensação de saciedade, enquanto o GIP acelera e não deixa desacelerar o metabolismo na perda de peso.

 

De acordo com o doutor em endocrinologia clínica Flavio Cadegiani, a molécula retatrutida é capaz de imitar três hormônios relacionados à perda de peso: o GLP 1, o GIP e o glucagon. Também produzido pelo pâncreas, o glucagon, mimetizado pela retatrutida, tem efeito contrário à insulina, mas ajuda na quebra de células de gordura. A combinação de ações pode auxiliar no gerenciamento do peso corporal e no tratamento da obesidade.

 

“O medicamento ainda está em desenvolvimento, mas já é o tratamento com maior eficácia já visto para obesidade. É o primeiro medicamento que tem potencial de ter quase uma equivalência em relação à cirurgia bariátrica”, destaca o médico e pesquisador.

 

Cadegiani pontua, porém, que os resultados são ainda da fase dois, então ainda é preciso acompanhar os estudos com maior número de pessoas para ter mais informações sobre efeitos adversos. Até o momento, os principais efeitos verificados nos ensaios foram náusea, vômito, constipação e diarreia, os mesmos mais comumente relatados por pacientes que usam Ozempic e o Mounjaro.

 

O ensaio clínico contou com 338 pacientes com obesidade que receberam uma dose semanal de retatrutida durante 11 meses, em diferentes doses. Eles perderam uma média de 23kg cada; todos perderam ao menos 5% do peso corporal e um quarto do grupo emagreceu mais de 30% do peso inicial, resultados vistos somente em cirurgia bariátrica.

 

O estudo avança agora para a fase 3, última antes de a farmacêutica pedir o registro aos órgãos reguladores.

Estilo de vida impacta

Conforme explica o endocrinologista, a obesidade é uma condição que normalmente está atrelada a outras doenças, como hipertensão e diabetes. Assim, além do uso da medicação, é necessária uma mudança no estilo de vida do paciente.

 

“A obesidade é uma doença multifatorial, mas hoje a gente sabe que 70% dela é determinante pela genética: são mais de 300 genes associados. O principal gene, chamado FTO, aumenta em até 60% do risco de obesidade”, diz.

 

“Entramos com os medicamentos depois que o paciente tenta todas as formas de mudança de estilo de vida, principalmente com alimentação e com atividade física, e mesmo assim não consegue ter uma perda significativa de peso. Acontece que, às vezes, a pessoa não está nem um pouco motivada e a gente deve entender isso também. Por isso é necessário humanizar e individualizar esse tratamento”, completa Flavio Cadegiani.

Acesso aos medicamentos ainda é um problema no país

Uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que, caso permaneça com a taxa de crescimento atual, a obesidade deve atingir 24,5% da população brasileira em 2030. Ainda segundo o estudo, condições socioeconômicas e falta de atividade física são os principais fatores associados à prevalência da doença no Brasil.

 

O doutor em endocrinologia pontua que a obesidade atinge cada vez mais pessoas de baixa renda, que não têm fácil acesso aos medicamentos, uma vez que não há tratamento clínico para a obesidade disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

 

“A obesidade no Brasil tem atingido mais as pessoas de classes B, C e D. A pessoa que demora duas horas para sair e duas horas para voltar, porque pega ônibus, chega em casa e não tem tempo de cozinhar. E, hoje, os alimentos industriais são mais baratos que os alimentos frescos. Como essa pessoa conseguirá ter uma mudança de estilo de vida?”, comenta Flavio.

 

“Não há medicamento para obesidade disponível no SUS, sendo que é uma das doenças mais prevalentes no país. Temos esse problema, porque a cirurgia bariátrica tem cobertura pelo SUS, mas o medicamento, não”, acrescenta o médico.

 

Para o doutor, é preciso haver equidade no acesso aos medicamentos. “Independente da classe social, da capacidade de compra, todos deveriam ter esse acesso. E esse problema ainda tem sido uma questão desafiadora”, finaliza.

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